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Recursos Hídricos

no Contexto da Mudança do Clima

Impactos da Mudança do Clima Medidas de Adaptação

O mito da infinita abundância de recursos se sustentou por muito tempo no desenvolvimento econômico do Brasil, obscurecendo problemas de demanda, disponibilidade e qualidade da água, além de conflitos para atender às necessidades das grandes áreas metropolitanas e áreas de irrigação em rápido crescimento (ANA, 2016). Estes problemas agravam-se com as previsões de mudança no clima que se traduzem em alterações nos padrões de temperatura e precipitação, assim como no aumento da variabilidade dos fenômenos hidrológicos extremos, como as secas e cheias. Essas mudanças serão sentidas significativamente, porém de forma diversa, nas diferentes regiões brasileiras e a água deverá ser o meio pelo qual as populações e os setores usuários serão impactados pelos efeitos da mudança do clima (BRASIL, 2016; MMA, 2017).

As alterações na disponibilidade e na qualidade dos recursos hídricos são resultado também de outros fatores de pressão, tais como o crescimento econômico, o uso e a ocupação das bacias hidrográficas, o aumento populacional e da demanda urbana, agrícola e de geração de energia (usos múltiplos) (BRASIL, 2016) . No Brasil, como pode ser visto na figura abaixo, dos setores consumidores de água (demanda consuntiva), o setor de irrigação foi responsável pela maior parcela de retirada, seguido das vazões de retirada para fins de abastecimento humano urbano, industrial, animal e abastecimento humano rural. No entanto, outros setores têm atividades estritamente dependentes de recursos hídricos, ainda que de forma não consuntiva, tais como geração hidrelétrica, navegação ou lazer (ANA, 2016).

Fonte: ANA, 2016

Impactos da mudança do clima sobre os recursos hídricos

Os principais impactos no Brasil podem ser sintetizados em quatro grandes tendências (BRASIL, 2016):

Aumento da criticidade hídrica para bacias hidrográficas da Região Nordeste, embora não haja consenso sobre estudos acerca da dinâmica da precipitação de chuvas. 

Rápido declínio nos fluxos em torno de 2100 para as bacias da parte ocidental do Nordeste e do Atlântico Ocidental. 

Tendência de declínio na oferta de água superficial para quase todas as regiões do Brasil. 

Aumento da precipitação e, consequentemente, das vazões para a região sul do país.

 

Impacto da diminuição da precipitação na disponibilidade hídrica

O abastecimento humano deve ser afetado pela redução da disponibilidade e qualidade suficiente de água, e aumento da demanda por aumento populacional, universalização do abastecimento, aumento de renda, etc. Há tendência de declínio na oferta de água superficial para quase todas as regiões do Brasil. O declínio das chuvas poderá impactar os fluxos dos rios em bacias geradoras de energia hidroelétrica. Alterações dos padrões hidrológicos e eventos extremos devem afetar também o planejamento de infraestrutura e de alocação de água para atendimento de usos múltiplos, já que este dimensionamento é feito com base em estatísticas das séries históricas, adicionando complexidade e incertezas. Em um cenário crítico de disponibilidade hídrica, deve aumentar o conflito entre a irrigação e outros usos da água, tais como o abastecimento urbano,  a geração de energia e navegação. Dessa maneira, serão necessárias medidas efetivas para manter as prioridades de uso estabelecidas por lei, assim como para ajustar os interesses dos diferentes usuários.

Em geral, além dos efeitos sobre as águas superficiais, a mudança climática deverá afetar as taxas de recarga de águas subterrâneas, ou seja, os recursos de águas subterrâneas renováveis e os níveis dos aquíferos (ANA, 2016). No Nordeste, por exemplo, a diminuição das chuvas resulta em menos água penetrando no solo, podendo haver uma redução de até 70% na recarga dos aquíferos dessa região, com potencial de prejudicar o abastecimento de cerca de 20 milhões de pessoas que ali vivem (CEDEPLAR e FIOCRUZ, 2008).

 

Impacto do aumento da temperatura na qualidade das águas

O aumento da temperatura das águas é primeiro impacto esperado em função da mudança do clima. Esse aumento provoca uma alteração nos processos químicos e biológicos, afetando a qualidade das águas. Um dos principais impactos é a redução nas concentrações de oxigênio dissolvido, interferindo na capacidade de autodepuração dos corpos d’água e na sua capacidade de manter a biodiversidade aquática.

A redução da vazão dos rios também impacta a qualidade das águas uma vez que ocorre a diminuição da sua capacidade de diluição de cargas poluentes. O aumento da duração e intensidade das chuvas, por sua vez, pode acarretar em maior transporte de sedimentos, nutrientes e agrotóxicos.

O resultado dessas alterações pode aumentar os custos de tratamento de águas destinadas ao abastecimento doméstico e ao uso industrial, além de afetar a viabilidade de uso para irrigação, reduzir a biodiversidade aquática e a pesca, aumentar a incidência de doenças de veiculação hídrica e ocasionar a perda de valores turísticos e paisagísticos (BRASIL, 2016).

 

Riscos, vulnerabilidade e capacidade de adaptação

A mudança do clima deve, por um lado, afetar a oferta de recursos hídricos pela alteração de disponibilidade e distribuição temporal de água, considerando os padrões de precipitação e frequência de eventos extremos. Por outro lado, deve também mudar os padrões de demanda de recursos hídricos pelos diversos setores usuários, devido ao aumento de temperatura, por exemplo, que aumenta a necessidade de hidratação (humanos e plantas) e/ou refrigeração (máquinas). Isso representa riscos para o abastecimento público, saúde, entre outros.

Para fortalecer a capacidade de adaptação de uma localidade, é preciso levar em conta seu contexto social. No Brasil, é sabido que os impactos das secas e inundações são sentidos com maior intensidade pelas populações mais vulneráveis, que enfrentam dificuldade para voltar ao estado de normalidade, não sendo capazes de lidar com os riscos apresentados (ANA, 2016).

Desta forma, os riscos, impactos e vulnerabilidades são múltiplos e dependem da localidade, setor e de suas capacidades adaptativas.

 

Medidas de adaptação em relação aos recursos hídricos

Algumas das medidas para minimização dos impactos e vulnerabilidades frente à mudança do clima são:

Agricultura 

  • Substituição de tecnologias de irrigação por métodos mais eficientes no uso da água e energia.
  • Promoção da conservação e aumento da infiltração em áreas de recarga dos aquíferos.
  • Aumento de investimento em medidas de conservação e recuperação de áreas naturais, como Áreas de Proteção Permanente.
  • Estímulos a práticas agrícolas que reduzem o uso de água e de sistemas agrícolas que são menos hidro intensivos, por exemplo o sistema agroflorestal.

Cidades

  • Investimento em coleta e tratamento de esgoto.
  • Redução de perdas, racionalização do uso e monitoramento da quantidade e qualidade da água nos mananciais.
  • Obras de grande porte (ex. reservatórios, canais, estações de bombeamento).
  • Conviver melhor com a variabilidade natural do clima, incluindo seus extremos como primeiro passo para adaptação (mudanças nos valores médios de vazão). Por exemplo, na Holanda, foi desenvolvido o conceito Room for River (espaço para o rio), que considera a variabilidade da vazão do rio e deixa espaço para que aconteçam as cheias que devem ser mais frequentes e maiores com a mudança do clima (ClimateWire, 2012).

Energia

  • Integração de usos múltiplos nos reservatórios.

Indústria

  • Investimento em tecnologias mais eficientes no uso da água ampliado para to- dos os tipos de indústrias.
  • Estímulo ao uso racional e ao reuso da água.

Intersetorial

  • Capacitação e mobilização dos usuários para a formulação e implementação de planos de contingência.
  • Técnicas de gerenciamento adaptativo da água, como o planejamento com cenários, com enfoques baseados no aprendizado e as soluções de não arrependimento (IPCC, 2014).

Você conhece outras ações de adaptação à mudança do clima que promovam a gestão de recursos hidrícos?

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Referências do texto:

  1. Cenário de baixa hidrologia para o setor elétrico brasileiro (2016-2030): impacto do clima nas emissões de gases de efeito estufa. Brasília. BANCO MUNDIAL, 2017.  
  2. Conjuntura dos recursos hídricos. Agência Nacional de Águas. ANA, 2016.
  3. Índice de vulnerabilidade aos desastres naturais relacionados às secas no contexto da mudança do clima: sumário executivo. Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Integração Nacional, WWF-Brasil. – Brasília, DF. MMA, 2017. 
  4. How the Dutch make room for the river. ClimateWire publicado 20 Janeiro, 2012.
  5. Mudanças Climáticas e Recursos Hídricos: avaliações e diretrizes para adaptação. Agência Nacional de Águas. – Brasília: ANA, GGES, 2016. 
  6. Mudanças Climáticas, Migrações e Saúde: Cenários para o Nordeste Brasileiro, 2000-2050. CEDEPLAR e FIOCRUZ, 2008.
  7. Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima: volume 2: estratégias setoriais e temáticas. Ministério do Meio Ambiente. Brasil, 2016.  

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