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Segurança Alimentar e Nutricional

no Contexto da Mudança do Clima

Impactos e Vulnerabilidades Medidas de Adaptação


A mudança do clima pode impactar negativamente a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) da população uma vez que temperaturas muito altas, ocorrência de desertificação, estresse hídrico e outros processos decorrentes afetam o direito humano à alimentação adequada, ou seja, o acesso regular e permanente aos alimentos, tanto no que concerne à quantidade quanto à qualidade, seja na cidade ou no campo (BRASIL, 2016).

A dimensão da SAN também engloba aspectos nutricionais e de saúde e de acesso e disponibilidade de alimentos nas cidades. Entretanto, o foco deste tema no Plano Nacional de Adaptação prioriza a discussão sobre a produção de alimentos e agricultura familiar, especialmente na região do semiárido. O setor agrícola é um dos setores econômicos mais sensíveis à mudança do clima, pois depende diretamente das condições climáticas. Perdas na produção agrícola impactam a oferta de alimentos e também as oportunidades de trabalho e geração de renda no meio rural. Isso significa a redução do consumo de alimentos, também por parte de agricultores familiares, e a diminuição da capacidade de geração de renda para estes agricultores, que não são capazes de comprar outros alimentos, diversificar sua alimentação e acessar bens e serviços básicos importantes para promoção de qualidade de vida de suas famílias e da SAN.

De acordo com o último Censo Agropecuário de 2006, 84% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros pertenciam a agricultores familiares, que ocupavam 74% de toda a mão de obra no campo, respondiam por 38% do Valor Bruto da Produção Nacional (VBP) agropecuária e por 70% da produção de alimentos consumidos no país (BRASIL, 2016).

 

Impactos, Vulnerabilidades e Capacidade de Adaptação

A incapacidade produtiva gerada por efeitos da mudança do clima impacta principalmente os agricultores familiares, pois estes dispõem de menor acesso a recursos para a adaptação, portanto são mais vulneráveis. No entanto, em relação aos produtores de larga escala dependentes de uma ou duas culturas em grandes latifúndios, os pequenos agricultores podem ter um papel crucial para promover uma maior capacidade de adaptação do ecossistema local por meio de métodos de produção mais sustentáveis, que se utilizam de uma variedade de produtos da agrobiodiversidade, e os preservam, ao mesmo tempo em que se beneficiam de serviços ambientais e de seus mercados emergentes (ASSAD et al., 2013).

Estudos (EMBRAPA, 2008; FERES et al., 2011; MARGULIS et al., 2011; MONZONI, 2013; PBMC, 2014) apontam que, em função da mudança do clima, poderá ocorrer no Brasil:

  • Redução de até 10,6 milhões de hectares de terra destinada à agricultura em 2030.
  • Reduções de áreas de florestas e matas nos estabelecimentos agrícolas, com aumento das áreas de pastagens.
  • Diminuição das áreas de baixo risco climático para o plantio dos principais produtos agrícolas alimentares e de exportação (arroz, feijão, milho, soja e mandioca).
  • Redistribuição regional de algumas culturas em busca de condições climáticas mais apropriadas;
  • Aumento da atividade pecuária nas regiões rurais no Nordeste.
  • Aumento na frequência e intensidade de eventos extremos climáticos com tendência a gerar impactos adversos sobre a produtividade e a produção de culturas agrícolas.

Acesse os impactos da mudança do clima na agricultura e em diferentes culturas e regiões do Brasil!

No curto prazo, extremos climáticos provocam quebra de safra agrícola, com problemas de escassez na oferta de alimentos e alta volatilidade dos preços. Esses efeitos combinados poderão impactar o sistema de abastecimento alimentar brasileiro, os preços dos alimentos, a cesta e o orçamento alimentar das famílias.

São estimadas perdas decorrentes da mudança do clima para culturas como mandioca, café, arroz, feijão e milho, que são de grande importância para o abastecimento alimentar do país, para a segurança alimentar e nutricional do brasileiro e para a produção da agricultura familiar. Por exemplo, 83% da produção da mandioca é proveniente da agricultura familiar. Poderão ocorrer ganhos de produtividade para a mandioca no bioma Pampa, devido à diminuição de localidades sujeitas a climas mais frios e geadas, e na Amazônia, por causa da diminuição dos excedentes hídricos. No entanto, quedas de produtividade e de aptidão agrícola são esperadas na região da Caatinga (semiárido e agreste nordestino), onde esse alimento é bastante relevante para a segurança alimentar e nutricional das famílias. Para mais da metade dos municípios da Caatinga, as estimativas sugerem perdas futuras severas de produtividade agrícola da mandioca, com consequências na produção para autoconsumo e geração de trabalho e renda agrícola por meio desta cultura (BRASIL, 2016).

 

Medidas de adaptação

As medidas de adaptação para a SAN vão em direção à construção de um sistema agrário e alimentar mais resiliente e sustentável. Para isso, deve-se promover estratégias de adaptação baseadas no fortalecimento tanto das comunidades quanto dos ecossistemas:

  • Práticas agrícolas que conservem a umidade do solo, matérias orgânicas e nutrientes, por exemplo: adoção de sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta, redução do uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, conservação da agrobiodiversidade, recuperação de áreas degradadas e mananciais.
  • Desenvolvimento de estratégias de diversificação produtiva e produção de alimentos no semiárido com culturas nativas.
  • Ampliação da capacidade de armazenamento da produção.
  • Melhoria da gestão da água com construção de sistemas de captura e armazenamento de água para o consumo humano e produção.
  • Criação de bancos de sementes crioulas e programas de inclusão produtiva para reduzir a vulnerabilidade de grupos sociais rurais.
  • Ampliação dos estudos sobre vulnerabilidades, riscos e impactos da mudança do clima para a SAN e temas relacionados.

 

Você conhece outras ações de adaptação à mudança do clima que promovam a segurança alimentar e nutricional? Compartilhe uma publicação ou ferramenta conosco!

 

Referências do texto:

  1. Aquecimento Global e a Nova Geografia da Produção Agrícola no Brasil. Embrapa; Unicamp, 2008.
  2. Diagnóstico preliminar das principais informações sobre projeções climáticas e socioeconômicas, impactos e vulnerabilidades disponíveis em trabalhos e projetos dos atores. MONZONI, M., 2013. 
  3. Economia da Mudança do Clima no Brasil: Custos e Oportunidades. Margulis, S.; Dubeux, C.;Marchovitch, J., 2011.
  4. Impactos das Mudanças Climáticas na Produção Agrícola Brasileira. Banco Mundial. ASSAD, E. et al., 2013. 
  5. Impactos, vulnerabilidades e adaptação às mudanças climáticas. Contribuição do Grupo de Trabalho 2 do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas ao Primeiro Relatório da Avaliação Nacional sobre Mudanças Climáticas. PBMC, 2014.
  6. Integração da Adaptação às Alterações Climáticas na Cooperação para o Desenvolvimento: Guia para o Desenvolvimento de Políticas. OCDE, 2011. 
  7. Padrão de Uso da Terra. In: Margulis, S.; Dubeux, C. (Ed.); Marchovitch, J. (Org). Economia da Mudança do  Clima no Brasil: Custos e Oportunidades. Feres, J.; Speranza, J.; Antônio Viana, P.; Barcellos, T.; Braga, Y., 2011.  
  8. Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima: volume 2. Ministério do Meio Ambiente. Brasil, 2016. 

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